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Os Mamíferos e a Contracultura: uma viagem pela cena musical capixaba nos anos 60 e 70

A contracultura na música popular brasileira passa obrigatoriamente pelo Espírito Santo, mas essa história construída à base de notas e acordes muitas vezes indóceis ao status quo permanece desconhecida para a maioria dos capixabas. A aventura começa na segunda metade dos anos 60, quando o roquenrol que se fazia por essas bandas tinha por costume reproduzir os sucessos de Beatles/Stones e bebia da fonte jovem-guardista de Roberto e Erasmo. The Jet Boys, Les Enfants, The Bats e Os Infernais eram essencialmente bandas de baile, que animavam a programação social dos clubes da Capital e do interior, e eram vistos como “alienados” pela ala cultural que utilizava as artes como instrumento de resistência contra a ditadura.

 O primeiro grupo a construir de fato uma produção autoral foi Os Mamíferos, aquele que se preocupou em reverberar a contracultura no Estado a partir de letras poéticas e provocativas, visual ousado e uma base sonora ampla, em sintonia com a diversidade da Era de Aquarius. Era como se Muddy Waters, Hendrix, Dylan, Antonio Maria e Dolores Duran promovessem um encontro em Santo Amaro da Purificação, terra de Caetano Veloso e, portanto, nascedouro do Tropicalismo, movimento que se apropriava da herança modernista e de todo o estudo antropofágico de Oswald de Andrade, com a ambição de se perpetuar na hegemonia da música popular brasileira.

Registro de um dos shows da banda Os Mamíferos no Espírito Santo. (FOTO: Reprodução/Arquivo/APEES)
Nas criações de Os Mamíferos, blues, rock, jazz e boleros misturavam-se com vigor decibélico capaz de abalar as estruturas do provincianismo de Vitória. Essa alquimia teve início em 1966, quando o baterista Marco Antônio Grijó chegou de Santos (SP) e se juntou a Afonso Abreu e Mário Ruy em um trio de violão, baixo acústico e bateria, ainda sob a égide bossa-novista. Dois anos depois, o trio original começa a compor com o vocalista Aprígio Gomes (depois Lyrio) e o letrista Sérgio Régis, tentando agregar à sua música ecos do surrealismo e da Beat Generation, calibrados pela leitura de Allen Ginsberg, Paul Éluard e André Breton, e pelo esplendor sinfônico do “Sgt. Pepper’s” dos Beatles. Ao mesmo tempo, no Rio, para onde haviam se mudado para estudar, Rogério Coimbra e Arlindo Castro compunham suas primeiras canções, entre elas a emblemática “Os Mamíferos”:

“Olha as vitrines se acendendo para você/Anunciando o que não vai acontecer/Olha as pessoas se ofertando para você anunciando o que vai acontecer/Os astronautas das luas perdidas/Bebem da água que não é bebida nas prisões/Os óculos são meias furadas/No varal da eternidade/Dedetize sua mente, dedetize sua mente/MIAU!”

A partir dessas criações, e cansados de tanta bossa e jazz acústicos, os dois lados resolveram juntar forças para criar um grupo elétrico, envenenado pela distorção da guitarra e o pedal wah-wah de Mário Ruy, o baixo elétrico de Afonso e o visual andrógino de Aprígio. Dentro dos ensaios a vida era agridoce, mas lá fora a barra pesava cada vez mais. Os assassinatos de Martin Luther King e do senador Robert Kennedy nos Estados Unidos, o Maio de 68 na França, o advento da pílula anticoncepcional, a ascensão do feminismo e a Guerra do Vietnã elevavam a temperatura política e social. A juventude francesa questionava antigos valores e exigia “a imaginação no poder”. No Brasil, o recrudescimento da ditadura militar se acirrou com a repressão às passeatas e culminou com a aprovação do AI-5 nos últimos suspiros de 1968, “o ano que não terminou”.

Mesmo assim Os Mamíferos entraram em 1969, assistiram à chegada do homem à lua e, de repente, perceberam que o inventivo apelo musical da banda não era suficiente para aplacar a sede de contestação de seus integrantes. Era preciso provocar, afrontar, desafiar a caretice geral também através do visual. Horas antes da participação na semifinal do II Festival Capixaba de Música Popular Brasileira, produzido por Milson Henriques, eles se reuniram na casa de Marco Antônio Grijó, na Rua Sete de Setembro, onde decidiram que iriam surgir no auditório do Colégio do Carmo com os rostos pintados. Ao que tudo indica pela primeira vez uma banda brasileira apresentava-se com maquiagem pesada, antecipando o fenômeno glitter que dominou o rock nos anos 70. Os componentes do júri e parte do público ficaram impressionados com “Cosmorama Total”, parceria de Chico Lessa e Ronaldo Alves, amplificada pela letra psicodélica e pela pauleira de Os Mamíferos.

No entanto, o reconhecimento da crítica viria somente em 1970, com a vitória no lII Festival Capixaba de Música Popular Brasileira, no Ginásio do Sesc. “Agite antes de usar”, de Aprígio Lyrio, Mário Ruy e Sérgio Régis, rendeu o primeiro lugar ao grupo e o troféu de melhor intérprete masculino a Aprígio. A verve roqueira da composição e do arranjo proporcionou a cama sonora ideal para o vocalista usar e abusar de seu potencial cênico, exibindo os cabelos cacheados, a calça boca de sino escura e a bata com peles de raposa nos ombros, ideia de Rubinho Gomes e Antonio Alaerte.

Essas e outras histórias estão retratadas na exposição “Os Mamíferos e a Contracultura – Uma Viagem pela Cena Musical do Espírito Santo nos anos 60 e 70”, uma realização da Secretaria de Estado da Cultura, do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo e da Serena Produções. O foco é a banda Os Mamíferos e os Festivais Capixabas de Música Popular Brasileira, produzidos por Milson Henriques entre 1968 e 1971, e que tiveram o mérito de colocar o Espírito Santo no mapa da música autoral brasileira. “Meio Mastro”, marcha-rancho de Chico Lessa e Tina Tironi, vencedora do festival de 1968, é um desses clássicos que merecem ser apreciados sem moderação pelas novas gerações. O recorte histórico da mostra contempla o vigor do rock setentista capixaba, representado pelo lendário Festival de Verão de Guarapari, além das experiências sonoras de Paulo Branco e das bandas Epitáfio e Mistura Fina, que abrigou boa parte dos integrantes de Os Mamíferos em roupagem jazzy.

O raro material que o espectador tem à disposição pertence ao acervo dos extintos Fundação Cultural e Departamento Estadual de Cultura, hoje administrado pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, além do acervo catalogado pela Serena Produções, coordenada por Murilo Abreu, integrante do Aurora Gordon, projeto multimídia que disponibiliza o legado dos movimentos musicais e de contracultura do Espírito Santo em diversos formatos, incluindo música, audiovidual, literatura e portal na internet.

O livro “Os Mamíferos – Crônica Biográfica de uma Banda Insular”, de Francisco Grijó, é uma das obras mais representativas desse trabalho de arqueologia musical que está apenas no começo. Portanto, mergulhe nessa viagem e – antes que se esqueça – agite antes de usar!

Texto por José Roberto Santos Neves, do Arquivo Público do Espírito Santo

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