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Carnaval de Vitória: Novo Império transforma o Sambão em território sagrado e exalta a força feminina ancestral

A segunda escola a entrar na avenida do Sambão do Povo, na primeira noite de desfiles do Grupo Especial do Carnaval de Vitória, foi a Novo Império, que apresentou um espetáculo de forte carga simbólica, estética refinada e narrativa coesa com o enredo "Aruanayê - Guardiãs dos Mistérios Ancestrais".

Com 1.500 componentes, a agremiação levou o público a uma verdadeira travessia espiritual, celebrando a união mística entre xamãs africanas e guerreiras indígenas, mulheres guardiãs do saber ancestral, da espiritualidade e da continuidade da vida.

Desfile da Novo Império. (FOTO: Marcos Salles/Prefeitura de Vitória)
Protegida pelo símbolo da coroa guardada por leões, a escola fez jus ao sentimento que ecoava das arquibancadas e camarotes: a Família Imperiana desfilou unida, cantando e profundamente entregue à proposta apresentada.

Mais do que contar uma história, a Novo Império apresentou um conceito. Aruanayê foi retratada como uma aliança tecida pelos fios invisíveis do tempo, selada pelos elementos da natureza e fortalecida pela resistência coletiva. O enredo evocou o pulsar da terra, reafirmando o amor pela vida e a luta contra o esquecimento.

No centro simbólico da narrativa, a figura feminina de Aruanayê surgiu como a própria manifestação da Mãe Terra: corpo que dança, protege, cura e resiste. Uma leitura potente, atual e necessária, que encontrou resposta imediata do público presente no Sambão do Povo.

Responsável por abrir o desfile, a Comissão de Frente, assinada por Mauro Marques, apresentou o espetáculo coreográfico "O Ritual da Jurema Sagrada", com 15 componentes, oito mulheres e sete homens em uma encenação de forte impacto visual e simbólico.

Desfile da Novo Império. (FOTO: Marcos Salles/Prefeitura de Vitória)
Logo nos primeiros movimentos, os bailarinos desenharam no chão da avenida o formato de uma flecha, marcando o início do ritual. Os gestos conectavam céu, terra e plateia, fechando o corpo para energias negativas e emanando proteção.

O primeiro casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, formado por Weskley Blank e Alana Marques, foi um dos grandes destaques do desfile. Com a fantasia "Espíritos Guardiões da Jurema", o casal traduziu com precisão a ligação entre o mundo material e o espiritual.

Alana impressionou pela leveza: em giros horários e anti-horários, parecia flutuar pela avenida, sem demonstrar esforço ao conduzir o pavilhão da escola. O casal personificou o equilíbrio entre força e delicadeza, movimento e respeito, arrancando aplausos calorosos das arquibancadas e camarotes.

A Ala das Baianas - Guardiãs da Lua abriu oficialmente o desfile da Novo Império, representando a força feminina ancestral que rege os ciclos do tempo, da natureza e da espiritualidade. Vestidas de branco e adornadas com símbolos lunares, as 35 baianas reafirmaram a lua como guia sagrada, iluminando caminhos e preservando tradições.

Desfile da Novo Império. (FOTO: Marcos Salles/Prefeitura de Vitória)
Entre elas, a presença de Dona Val, de 75 anos, a baiana mais velha da escola, que desfila há 40 anos. Ao vestir a fantasia e pisar na avenida, ela carregou consigo a memória viva de gerações. Questionada sobre o que aquele momento despertava em sua lembrança, resumiu:

"Uma trajetória marcada pela dedicação a escola. É um momento de carregado de emoção, que desperta lembranças, orgulho e principalmente alegrias e muitos sorrisos por representar minha escola."

O depoimento traduziu o espírito do desfile: pertencimento, resistência e a certeza de que a tradição segue viva através da fé e da memória.

O primeiro carro alegórico, "Guardiã de Todas as Tradições", funcionou como um manifesto visual do enredo. A alegoria apresentou o ser feminino como símbolo máximo da sabedoria ancestral e da continuidade cultural. As raízes surgiram como elemento central da composição, conectando a guardiã à terra, à memória e aos saberes originários. Cercada por animais sagrados, totens e grafismos tradicionais, a alegoria afirmou que é no enraizamento da memória que as tradições se mantêm vivas e seguem sendo transmitidas às novas gerações.

Desfile da Novo Império. (FOTO: Marcos Salles/Prefeitura de Vitória)
Quando a bateria da Novo Império começou a tocar, o Sambão do Povo sentiu. A Orquestra Capixaba de Percussão, com 180 ritmistas, fez da avenida um território de pulsação ancestral, onde cada batida parecia chamar a memória, a fé e a força de quem veio antes.

Sob o comando firme de Mestre Vinícius Seabra, a bateria conduziu a escola com segurança e emoção. O ritmo veio forte, envolvente, sem perder o chão em nenhum momento. Os surdos marcavam o compasso, enquanto caixas, repiques e tamborins conversavam com o samba, levantando o público e empurrando a Novo Império para frente.

As bossas, ousadas e bem colocadas, arrancaram reação imediata das arquibancadas. A cada virada diferente, o público respondia com palmas, gritos e olhares atentos. Era ritmo que chamava, que convocava, que fazia o corpo responder quase sem perceber. Mesmo nos momentos mais difíceis, a bateria mostrou entrosamento e controle, mantendo o samba vivo do começo ao fim.

Outro destaque foi a presença de muitos ritmistas jovens, que tocaram com brilho nos olhos e responsabilidade nas mãos. A mistura entre experiência e renovação deu um tom especial à apresentação, mostrando que a tradição da Novo Império segue pulsando forte e se preparando para o futuro.

Desfile da Novo Império. (FOTO: Marcos Salles/Prefeitura de Vitória)
A frente da bateria, a Rainha Rayane Rosa, como "Soberana do Pulsar Ancestral", parecia traduzir em dança tudo o que vinha do ritmo. Seus movimentos acompanhavam cada batida, reforçando a conexão entre o som, o corpo e a energia da escola. Ali, não era só música: era o coração da Novo Império batendo alto, ecoando pela avenida e ficando na memória de quem assistiu.

No último setor, a Novo Império celebrou a riqueza cultural herdada das tradições ancestrais e sua capacidade de se transformar em força de renovação. A diversidade de cores, símbolos e manifestações projetou um futuro pautado na resistência, na identidade e na esperança defendida em Aruanayê.

Para o carnavalesco da agremiação, Osvaldo Garcia, o desfile representou mais do que a materialização de um enredo na avenida. Foi a oportunidade de transformar o Sambão do Povo em espaço de escuta, reflexão e celebração das origens. Ao comentar a proposta apresentada pela escola, destacou:

"A proposta é levar ao público a mergulhar no imaginário dessas duas matrizes culturais, mostrando suas forças, tradições e conexões, energia que a Novo Império pretende transmitir na avenida.."

Desfile da Novo Império. (FOTO: Marcos Salles/Prefeitura de Vitória)
Ao cruzar a linha final, a Novo Império foi aplaudida por um público que reconheceu a consistência do conjunto apresentado. Mais do que um desfile, a escola entregou uma experiência sensorial e espiritual, onde passado, presente e futuro se encontraram para coroar Aruanayê na pista e na memória do Carnaval de Vitória 2026.

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