Partindo do pressuposto de que a primeira criatura humana foi feita por uma mulher preta, o espetáculo “O Princípio do Mundo” reestreia no próximo sábado (8), às 20 horas, com reapresentação domingo (9), às 18 horas, no Teatro Universitário, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em Vitória.
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| A atriz Elisa Lucinda em cena no espetáculo. (FOTO: Jonathan Estrella) |
“Estamos propondo uma ocupação menos predatória e menos violenta do mundo. É inadmissível que ainda hoje o masculino represente uma ameaça à vida de uma mulher, então desfilamos tais assuntos para fazer refletir, mas utilizando graça, beleza e humor nas palavras. Já estamos vivendo num mundo muito árido, que está carecendo de mais doçura”, adianta Elisa Lucinda.
E completa: “Na peça, a personagem ancestral, ao lado de seu jovem aprendiz, se embrenha numa saga de cenas que discorrem sobre o perigo do destino humano quando longe dos fundamentos matriarcais. Neste momento em que estamos, onde as pessoas não sabem como lidar com as crianças e os adolescentes, e muitos jovens estão órfãos de natureza e contatos presenciais, apresentamos um mosaico de ideias para a construção de uma cultura de paz”.
Deste modo, o 7º espetáculo da companhia segue na contramão do que pensa o mundo ocidental e se conecta às sociedades africanas - como o ditado que diz que quando um ancião morre, morre uma biblioteca.
Não à toa, esses povos têm como prática ritualística de convívio diário encontros onde os ensinamentos são passados através de histórias, fábulas, representações cênicas, cantos e outros fundamentos para os mais novos. De maneira que a juventude consiga, ao conhecer a sua história, assentar o presente neste passado. E quanto mais fortalecida se torna essa raiz, mais o futuro floresce.
“Para viver a Mãe do Mundo tivemos que atravessar essa ancestralidade, mergulhar num começo anterior à narrativa oficial que conhecemos. Se pensarmos bem, essa narrativa oficial da história do mundo, que entendemos como universal, inviabiliza os saberes antigos. Isso levou muitas gerações ao equívoco de verem a África, por exemplo, como uma aldeia, e não um continente com 54 países, cuja contribuição cultural é muito importante para o realinhamento saudável deste mesmo mundo. Eu me sinto em estado de gratidão com os meus fundamentos ao viver essa mãe”, vibra Elisa com a nova personagem.
Algo nem sempre comum, a dramaturgia foi sendo construída à medida em que os ensaios foram acontecendo, o que mudou bastante a concepção do espetáculo.
“É uma diferença enorme, enquanto estou fazendo a dramaturgia eu já estou dirigindo, direcionando para as cenas que considero potencialmente teatrais. Essa construção deixa tudo vivo, menos engessado. É uma entrega absoluta, é como se fôssemos guiadas por esse deus do teatro que vai dizer como espiritualmente o espetáculo deve existir. E abrimos o nosso canal criativo para criarmos uma conexão com esse divino que é o teatro”, acredita a diretora Geovana Pires.
Entusiasta do que chama de “risco da criação”, Elisa pondera sobre o arcabouço poético do texto cênico, o seu primeiro todo escrito com rimas.
“É a primeira vez e é de propósito. Queremos que o texto seja uma estrela. Acredito na palavra como ouro, assim vejo a força da cultura oral. Nossa companhia nunca construiu um texto totalmente poético, principalmente nos diálogos. Por outro lado, somos especialistas, e digo sem medo, em encenar poesia. Embora seja mais assinado por mim, o texto tem versos inteiros de Geovana e, inclusive, um poema do próprio Gabriel. Geovana é uma dramaturga muito experiente, e é muito confortável você estar ao lado de uma dramaturga que também é diretora, porque ela já pensa em cena”, observa a multiartista.
Estreando no teatro profissional tão bem acompanhado, Gabriel Demarchi já entra no palco revelando a potencialidade de seus múltiplos talentos. Além de dividir a cena com Elisa Lucinda, é do jovem de 14 anos a missão de embalar trechos da peça ao som do kamale ngoni, instrumento também conhecido como harpa africana.
“Aprendi a tocar em cerca de duas semanas. Foi um desafio rápido, mas muito gostoso, porque o som tem tudo a ver com o clima da peça e me conectou ainda mais com a história. Estrear tão jovem, e já podendo mostrar meu trabalho como ator e também meu lado musical, ainda mais ao lado de pessoas que admiro tanto, está sendo uma experiência incrível”, comemora Gabriel.
Elogio à velhice
Considerando tanto o poder da palavra em si, quanto o encantamento que ela produz, com esta montagem a Companhia da Outra realiza um elogio à velhice, por entender que temos muito a aprender com a ancestralidade.
“Convidamos o público a confiar no tesouro que o ser humano é, com seus recursos e saberes antigos que moram em nossa memória e precisam ser resgatados. Nas sociedades indígenas e africanas o velho é considerado um sábio. Em sua volta, toda aldeia se reúne para desfrutar de seu saber e o melhor, o jovem gosta do abrigo dessa sabedoria. Estamos convictos de que a natureza é uma escola que não fecha”, finaliza Elisa Lucinda.
Apresentação do espetáculo “O Princípio do Mundo”, com Elisa Lucinda
Datas: 8 e 9/ago (sábado e domingo)
Local: Teatro Universitário da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) - Av. Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitória
Horários: sábado, às 20h, e domingo, às 18h
Ingressos: R$ 25(meia/mezanino), R$ 50 (inteira/mezanino), R$ 60 (meia/plateia) e R$ 120 (inteira/plateia)
Vendas: Site Meu Bilhete
Classificação: 12 anos
Duração: 90 minutos
Informações: Instagram do espatáculo
Ficha técnica
Texto e Dramaturgia: Elisa Lucinda e Geovana Pires
Elenco: Elisa Lucinda e Gabriel Demarchi
Direção: Geovana Pires
Assistente de direção: Nando Rodrigues
Direção de produção: Rafael Lydio
Direção de movimento: Elton Sacramento
Cenário e Figurino: Arieli Marcondes
Direção musical: Glaucus Linx
Desenho de luz: Djalma Amaral
Preparação musical: Beà Ayòóla
Preparação vocal: Pedro Lima
Assistente de figurino: Luan Mateus
Assistente de arte/figurino: Jessica Araújo
Coordenação de comunicação: Daniel Barboza (Incerta)
Projeto gráfico: Allan Brandão
Fotografia: Vantoen Pereira Jr.
Assistentes de fotografia: Iury Senck e Xayoncé Queen
Cinematografia: Chamon Audiovisual
Mídias sociais: Carla Freitas
Assessoria Jurídica: Thais Dumêt
Assistente de produção: Eduardo Brandão e Rafaela Santos
Coordenadora institucional: Taís Espírito Santo
Idealização: Instituto Casa Poema
Realização: Companhia da Outra
Produção: Paragogí Cultural





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